A crescente presença da inteligência artificial no setor artístico tem gerado debates intensos. E um dos nomes mais influentes do cinema de animação, Hayao Miyazaki, cofundador do Studio Ghibli, já deixou claro seu posicionamento: ele rejeita completamente o uso de IA na arte.
O tema voltou à tona após uma nova ferramenta de geração de imagens da OpenAI ser disponibilizada ao público. Rapidamente, redes sociais como X (antigo Twitter) e Reddit foram inundadas por imagens criadas com comandos que pedem artes no “estilo Ghibli”. A popularidade dessas criações gerou polêmica e fez ressurgir um vídeo antigo no qual Miyazaki expressa sua aversão ao uso dessas tecnologias.
“Um insulto à própria vida”
Durante uma apresentação tecnológica presenciada por Miyazaki e o produtor Toshio Suzuki, foi exibida uma ferramenta de animação experimental — não exatamente uma IA, mas um software de geração automática de movimentos. A demonstração exibiu imagens grotescas e movimentos desumanos, sugerindo aplicações voltadas a animações de horror corporal.
A resposta do diretor foi imediata e categórica. Miyazaki compartilhou uma história pessoal sobre um amigo que perdeu o uso de um dos braços, possivelmente em decorrência do trabalho artístico manual. Em sua fala, ele declarou: “Sinto que isso é um insulto à própria vida”, deixando os desenvolvedores em silêncio.
Quando questionado por Suzuki sobre os objetivos da ferramenta, um dos criadores respondeu que queriam criar uma máquina capaz de desenhar como um ser humano. A resposta de Miyazaki foi direta: “Os humanos perderam a fé em si mesmos”.
Estilo Ghibli e IA: choque de valores
As obras do Studio Ghibli são conhecidas por sua animação feita à mão, detalhada e emocionalmente rica, com foco em temas como natureza, espiritualidade e humanidade. A utilização desse estilo por ferramentas de IA generativa vai na contramão dos valores defendidos por Miyazaki ao longo de décadas.
A discussão sobre IA na indústria da animação e mangás vem crescendo, especialmente com casos como o uso de vozes automatizadas em dublagens por plataformas como a Amazon e ferramentas de tradução baseadas em IA. Para muitos artistas, essas práticas representam uma ameaça direta ao trabalho humano e à autenticidade criativa.
Com esse cenário, as palavras de Miyazaki ganham relevância ainda maior: não se trata apenas de preferência estética, mas de uma defesa apaixonada da arte como expressão humana legítima — algo que, segundo ele, nenhuma máquina poderá reproduzir.